O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro se enfrentaram no último debate da corrida presidencial de 2026, na noite desta sexta-feira (23). Promovido pela TV Globo, o encontro foi mediado pelo jornalista César Tralli.
O debate foi baseado em perguntas entre os candidatos, com o objetivo de buscar um aprofundamento de seus planos para o governo federal, no caráter propositivo das discussões sobre os principais temas de interesse da população.
Primeiro bloco
No primeiro bloco são realizadas seis rodadas com assuntos relacionados às diferentes regiões do país e a um tema prioritário de âmbito nacional.
Flávio Bolsonaro abriu o debate da noite. O tema sorteado para o candidato foi infraestrutura e exportação. O candidato do PL perguntou a Lula sobre obras inacabadas no Brasil, e como o presidente pretende dar prosseguimento a elas.
Lula diz, em resposta a Flávio, que nunca se investiu tanto em infraestrutura no país. Ele mencionou o Programa de Aceleração do Crescimento para criação de hidrovias, ferrovias, estradas, portos e aeroportos.
Em réplica, Flávio disse que vai concluir a TransNordestina e rasgar o país em ferrovias, principalmente em regiões produtoras agropecuárias. Ele também garantiu que pretende investir em concessão de rodovias, com garantia de pedágio zero para motociclistas. Lula, em tréplica, afirma que o governo atual já está fazendo a TransNordestina e a obra nas Serra das Araras.
Na sequência, foi a vez de Lula perguntar sobre o Sudeste. Ele questionou o candidato do PL sobre qual seria o valor do salário mínimo se o governo estivesse ainda sob gestão de Jair Bolsonaro. Em resposta, Flávio questionou Lula sobre o endividamento da população durante o seu governo. Lula, então, defendeu os reajustes do salário mínimo em governos do PT. Depois, questionou o candidato se ele era a favor da proposta de disponibilizar ônibus gratuitos para população aos finais de semana. Flávio, na tréplica, afirmou que é a favor da tarifa zero para trabalhadores.
Após novo sorteio, Flávio perguntou a Lula sobre a região Centro-Oeste. Ele iniciou a pergunta afirmando que trata-se da região que mais produz alimentos no Brasil, e questionou a dificuldade de incentivos ao setor no governo petista. Lula, então, rebateu dizendo que nunca se exportou tanto e que houve superávit comercial.
Flávio, em tréplica, respondeu falando sobre a burocracia e a dificuldade em investir em maquinário. Ele diz que, em seu governo, haverá segurança jurídica para investir e destacou os governos eleitos da região, que são seus aliados.
“Sou pós-graduado em política. O Brasil escolheu a mudança. Você que planta, enfia a mão na terra para garantir seu sustento, eu sei das suas dificuldades. É impossível plantar e produzir neste país por causa dos juros tão altos. Falo para você que é aposentado rural: a sua aposentadoria está garantida. Não vai precisar ficar tanto tempo na fila, porque vou dar isso na palma da mão”, disse.
Lula fez a antepenúltima pergunta do bloco sobre a região Sul. Ele questionou Flávio sobre o reajuste de aposentadorias e se a proposta cabe no “tesouraço” proposto pelo senador. O candidato do PL afirma que vai reajustar as aposentadorias.
Na sequência, disse diretamente sobre o Rio Grande do Sul, e que vai atuar junto ao governador Zucco para evitar enchentes. “Eu vou ajustar a aposentadoria acima da inflação. O Lula virou as costas para a população do Sul no momento das cheias. Eu sou o presidente que vai tirar o Estado dessa dívida. Eu vou ajudar na reconstrução de Porto Alegre. O que estiver ao meu alcance, eu vou fazer. Vamos combater essa rota de armas.”
Na penúltima pergunta do bloco, Flávio questionou Lula sobre água e esgoto na região Norte do país. Em resposta, Lula afirmou que Flávio não conhece o Brasil e que a imagem que ele tem do estado do Amazonas é do pai dele, o ex-presidente Jair Bolsonaro, “rindo de pessoas com falta de oxigênio” na época da pandemia.
Em réplica, Flávio diz que vai investir em saneamento básico na região, com base nas metas do Marco Legal do Saneamento Básico. “Fizemos o Marco Legal do Saneamento Básico. Temos 40 milhões de brasileiros que não têm água tratada. Fizemos um investimento para que 90 milhões [tenham acesso ao serviço]. Vou resolver o maior problema de saneamento básico de Belém”, garantiu.
Por último, Lula perguntou a Flávio sobre os programas sociais que levaria para a região. Flávio respondeu que vê o Nordeste como uma solução e afirmou que Lula levou o Comando Vermelho para a região, alegando que os estados nordestinos estão entre os mais violentos do Brasil.
“O que você [Lula] levou para o Nordeste foi o Comando Vermelho. O Nordeste é administrado pelo PT, é um dos estados mais violentos do Brasil.”
Em seguida, falou sobre o Bolsa Família: “Antigamente, no governo dele, o Bolsa Família era, em média, R$ 190. Passou para, no mínimo, R$ 900. Garanto que vai ter reajuste no governo de Flávio Bolsonaro e, se a pessoa for empregada, vai continuar recebendo até se estabilizar financeiramente.” Além disso, prometeu construir uma grande ferrovia cortando o Nordeste.
Segundo bloco
O segundo bloco do debate entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) teve troca de acusações sobre políticas sociais, dívida pública e saúde. Ao discutir o voto de Flávio contra o aumento da licença-maternidade, quando era deputado estadual no Rio de Janeiro, Lula também criticou o adversário por ter chamado o Bolsa Família de “Bolsa Farelo”. Durante o confronto, o senador se referiu ao presidente como “nove dedos”, e Lula reagiu, defendendo sua trajetória profissional. “Se tem alguém aqui nesse público que sabe o que é o mundo do trabalho, sou eu. Se tem alguém que perdeu o dedo com dezessete anos, fui eu”, afirmou. Flávio, então, respondeu: “Se eu te ofendi, porque eu te chamo de nove dedos, eu te peço desculpa de verdade. Não queria te ofender”.
Na discussão sobre dívida pública, Flávio acusou o governo federal de gastar excessivamente e aumentar impostos, além de relacionar a situação das contas públicas ao endividamento das famílias. O senador apresentou uma proposta de renegociação das dívidas por meio da Caixa Econômica Federal. Lula afirmou que já havia encaminhado uma iniciativa semelhante ao Senado e rebateu: “Ele está copiando uma coisa que eu já mandei para o Senado”. O presidente também defendeu o crescimento econômico como caminho para reduzir a dívida em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) e gerar empregos.
O último tema foi o Sistema Único de Saúde (SUS). Lula criticou a condução da pandemia de Covid-19 pelo governo de Jair Bolsonaro e defendeu a atuação do sistema público durante a crise sanitária. “E graças a Deus existiu o SUS”, declarou. Flávio, por sua vez, reconheceu a importância do serviço, mas criticou as filas e a gestão da saúde pública. O senador prometeu ampliar o Instituto Nacional de Câncer (Inca), refinanciar dívidas das Santas Casas e atualizar os valores pagos por procedimentos médicos. “Eu vou atualizar a tabela SUS”, afirmou.
Terceiro bloco
Flávio Bolsonaro iniciou o terceiro bloco escolhendo o tema do endividamento dos brasileiros. Ele questionou o presidente se considera que os alimentos estão baratos para a população endividada.
Em sua resposta, Lula citou iniciativas do governo, como o programa Desenrola, e afirmou que trabalha para que a população volte a consumir e a ganhar dinheiro. “O endividamento é uma coisa muito séria. Criamos o Desenrola para fazer com que o povo resolva a dívida que contraiu.”
O presidente também mencionou o fim das bets, afirmando acreditar que a medida fará sobrar mais dinheiro nas famílias. Em réplica, Flávio relacionou o endividamento dos brasileiros às ações do próprio governo e à taxa de juros. O senador afirmou que pretende ajudar a população a quitar suas dívidas e disse ter um plano para isso. Ele também prometeu criar um Ministério da Propriedade e garantir financiamentos com juros mais baixos.
Na tréplica, Lula afirmou que o governo realizou duas etapas do Desenrola, que teriam beneficiado, respectivamente, 15 milhões e 16 milhões de pessoas, mas reconheceu a necessidade de novas medidas.
“Vamos fazer um leilão que pode chegar a R$ 150 bilhões para comprar as dívidas dos bancos dessas pessoas.”
Na sequência, Lula escolheu perguntar a Flávio sobre o ensino em tempo integral e questionou: “O que você vai fazer com a escola de ensino integral neste país?”
Flávio afirmou que o adversário zerou o orçamento federal destinado às escolas em tempo integral. O senador prometeu garantir auxílio-creche e investir no ensino integral e técnico, para que os alunos permaneçam mais tempo na escola e desenvolvam habilidades importantes para o futuro. Ele também garantiu que manterá o programa Pé-de-Meia.
Flávio Bolsonaro escolheu perguntar sobre a retomada de territórios. Ele questionou Lula sobre as saidinhas temporárias e a classificação de organizações criminosas, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), como terroristas.
Em resposta, Lula mencionou o caso da menina Ana Clara e questionou o senador sobre o motivo pelo qual defendeu o policial acusado pelo crime.
Flávio, então, prestou solidariedade à mãe da menina e afirmou confiar que o autor do disparo não foi o policial acusado. Em seguida, garantiu que, se eleito, classificará o CV e o PCC como organizações narcoterroristas.
Na tréplica, Lula afirmou que dará proteção aos trabalhadores e defenderá a prisão de criminosos. “Para o trabalhador, proteção; para o bandido, cadeia. Vamos acabar com essa cambada de milicianos e narcotraficantes.”
Quarto bloco
O quarto bloco do debate entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) foi marcado por acusações mútuas envolvendo patrimônio, suspeitas de corrupção e relações com empresários. Lula abriu a rodada questionando Flávio sobre uma denúncia envolvendo a posse de uma ilha em Angra dos Reis. O senador negou irregularidades e afirmou que o caso já havia sido julgado. Em seguida, Flávio questionou Lula sobre uma garrafa de uísque avaliada em R$ 500 mil que o presidente teria recebido de presente. Lula rebateu as acusações e declarou: “O que você não se conforma é que você criou um banqueiro e eu fiz ele prisioneiro”. Flávio negou irregularidades e acusou o presidente de falta de transparência sobre seu patrimônio.
Ao longo da discussão, os dois trocaram acusações sobre supostos vínculos com o empresário Daniel Vorcaro, do Banco Master, e possíveis irregularidades envolvendo recursos e patrimônio. Flávio também questionou Lula sobre bens atribuídos ao filho do presidente e cobrou a divulgação de informações sobre cartões corporativos e visitas ao Palácio da Alvorada. Lula, por sua vez, acusou o adversário de mentir e afirmou que havia uma “quadrilha solta nesse país”. Flávio negou as acusações e declarou: “Eu nunca fui investigado por causa de envolvimento com milícia”.
Nas considerações finais, Lula pediu votos para o segundo turno e defendeu sua trajetória política, afirmando que o eleitor deveria escolher entre a continuidade de seu projeto e o retorno de um grupo que, segundo ele, ameaça a democracia. Flávio prometeu combater as milícias e melhorar a segurança pública. “Eu quero que você volte a ter tranquilidade”, afirmou o senador, que também prometeu recuperar o poder de compra da população e pediu votos para sua candidatura.
Checagem de fatos
Após críticas ao primeiro debate antes do segundo turno, promovido pela Band, a TV Globo decidiu adotar a checagem dos fatos e assuntos abordados durante o encontro em tempo real. No portal g1, as declarações dos candidatos foram verificadas na página do Fato ou Fake. A apuração contou com equipes dos jornais O Globo, Extra e Valor Econômico e da Rádio CBN.
Foram checadas as seguintes informações:
Flávio disse que o TCU acaba de divulgar relatório apontando mais de 11.500 obras paralisadas do atual governo. É FALSO. O TCU mais recente (abr/2026) aponta 4.215 obras federais paralisadas, não 11.500; os cerca de 11,5 mil são de 2024 e 2025.
Lula disse que a economia brasileira voltou a crescer depois de anos sem crescer acima de 3%, porque o governo conquistou respeito. É FALSO. O PIB cresceu mais de 3% depois de 2010: 3,9% em 2011 e 4,8% em 2021, antes do atual governo. Em 2023 e 2024 ficou em 3,2% e 3,4%. Dado oficial do IBGE, checado pelo Fato Carimbado.
Segundo turno
Neste domingo (25), os eleitores brasileiros vão às urnas para definir o próximo presidente do Brasil. Após um primeiro turno acirrado, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) voltam a se enfrentar nas urnas.
O DIA

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